O que pensa Jaime Neves do País Actual

 

Trinta e dois anos depois do 25 de Novembro, está desiludido com o que se passou até agora? Valeu a pena fazê-lo?
Jaime Neves – Confesso que estou desiludido. O País está mal. Estamos mal. Mas não estou arrependido, isso não. Não foi para isto que fizemos o 25 de Novembro. Mas voltava a fazer o 25 de Novembro. De resto, eu também fiz o 25 de Abril convicto. Eu vim de África em Dezembro de 1973. Sabia vagamente o que se passava e quando o Otelo me contactou eu disse-lhe logo que não valia a pena falar muito porque eu ia.
– Não hesitou?
– Sabe que eu tinha treze anos de África e dois de Índia. E estive em África antes de começar a guerra. E vi muita coisa que me desagradou. Em 1962 tive que vir a Lisboa na altura em que chegaram os prisioneiros da Índia. E era amigo de um deles que era mais velho do que eu três anos e a mão pediu-me para o ir buscar. E não é que quando eu cheguei ao cais não me deixaram entrar. Havia colunas de militares que me impediram o acesso.
– Foram muito maltratados pelo regime de então?
– Muito. Fui depois buscá-lo ao antigo Caçadores 5, às onze da noite, e levei-o eu. Tinham-lhes dado fardas novas para a viagem. Mas mal chegaram a Lisboa foram entregá-las. E deram-lhes aquelas fardas antigas cinzentas, com uma corda à cintura, um frio imenso. Uma camisa, umas calças e umas alpergatas sem meias.
– Isso afectou-o muito?
– Foram chamados de cobardes e outras coisas mais. E começou a germinar em mim um grande descontentamento sobre o que se passava cá e em África. Com muitos erros. Para mim o pior de todos foi não termos fomentado a emigração para lá. Era mais complicado uma pessoa ir para lá do que para a América ou outro sítio qualquer.
– Mas agora está desiludido porquê?
– A primeira grande desilusão começou logo a seguir ao 25 de Abril e até ao 25 de Novembro. Eu fiquei aqui em Lisboa com 500 homens, com duas companhias de caçadores, porque não havia mais e eu corria a tudo. Até levei os presos do Aljube para o Linhó quando pegaram fogo àquilo tudo. Oito de cada vez, porque eram muito perigosos. Em três dias despachámos tudo.
– Fazia de pronto-socorro?
– Era. E uns tempos depois pediram-me para os tirar de lá porque era uma cadeia de menores e andaram lá a perverter os miúdos todos. E estive na TAP quinze dias quando houve a greve do pessoal da manutenção. E eu bem perguntava se não havia Força Aérea. E a resposta era sempre a mesma: é preciso disciplina. E lá estive a dormir uma série de dias no chão.
– Foi um período complicado? De 1974 até 1975?
– Repare que o Regimento de Comandos foi criado em Julho de 1974. Deixaram que eu chamasse 300 convocados, pessoal que esteve comigo em África. Não imagina o que foi. Todos a falar de nós, muitos contra nós, políticos e não políticos. E eu andava ali a apagar incêndios. Mas sabe que os grandes responsáveis de tudo foram os militares esquerdistas, os comunas, como nós lhes chamávamos.
– Tentaram saneá-lo do Regimento de Comandos pelo menos uma vez.
– Foram dezassete. Eram bons. Dezasseis furriéis e um alferes. Numa noite tomaram conta dos soldados, fecharam o armamento todo e o Otelo, que chegou nessa noite de Cuba, foi ao Regimento. Falou um minuto e meio com dois deles e veio dizer que o “Jaiminho tinha perdido a confiança dos seus homens”.
– Essa frase ficou na história do PREC.
– Pois ficou. Sabe que os furriéis disseram-me depois que foram chamados ao Cunhal e que ele lhes garantiu todo o apoio caso o golpe falhasse.
– Três dias depois voltou.
– O Otelo viu que eles não queriam dar-lhe o Regimento. Era para o Partido Comunista. E chamou-me. Decidiu voltar a trás. E voltei. Choraram e tudo. Foi tudo preso. Mas o Otelo fez coisas inacreditáveis comigo. Apesar de saber que eu tinha a unidade mais forte do COPCON.
– Afinal quem é provocou o 25 de Novembro. O Partido Comunista? Ou o Grupo dos Nove?
– Não é a preto e branco. Houve movimentos de ambos os lados. A verdade está aí pelo meio. Não foi fácil. Foram tempos difíceis.
– Fala com Otelo ou não?
– Nunca mais falei com ele. Desde o 25 de Novembro. Nunca mais o vi. E até evito estar em sítios com ele.
– E que opinião tem de Costa Gomes?
– Bem, sabe que às vezes não gosto de falar disso. Mas o general Costa Gomes, por exemplo, foi condecorado em 1973 em Angola pela PIDE. Águia de ouro.
– Foi uma desilusão para si? Todo o papel que teve no chamado PREC?
– Tudo. Não é por acaso que tinha como alcunha entre nós “o rolha”.
– Essa ficou muito popular.
– O “rolha”.
– Mas no 25 de Novembro ficou ao lado dele, respeitou a cadeia de comando que acabava no general Costa Gomes, chefe de Estado e das Forças Armadas?
– Fiquei. Ele é que estava lá. Lembro-me que no dia 24 de Novembro foi lá uma delegação de oficiais, entre os quais ia eu, e se não me seguravam eu matava-o. Atirei-me a ele, agarrei-lhe o pescoço, até o matava. Porque ele não queria assumir nada.
– A responsabilidade pelas operações militares?
– Não queria. Só dizia que os outros eram coitadinhos e por aí adiante.
– Costa Gomes estava hesitante?
– Cheio de medo. Cheio de medo. Era mesmo o “rolha”. Lembro-me daquele caso do capitão cubano, o Peralta, que estava preso no Hospital da Estrela. E um dia os grupos de extrema-esquerda fizeram lá uma manifestação para o soltarem. E o Costa Gomes chamou-me e disse-me, em nome da Junta de Salvação Nacional, para ir lá e afastar aquela gente dali. Deitaram-se no chão para não nos deixarem passar. Mas sabe que eu exigi ao Costa Gomes que me escreve a ordem. Que eu podia usar os meios necessários para a missão.
– Por escrito?
– Sim. E ele, ao fim de quinze minutos, lá escreveu que eu podia usar os meios necessários, todos, mas só de fossem mesmo precisos. Veja lá um general dar uma ordem destas a um militar.
– E não lhe disse nada por estar a exigir a ordem por escrito?
– Perguntou-se se eu não confiava na palavra dele. E eu disse-lhe que não.
– Voltando ao 25 de Novembro. Acha que tinha condições para ir mais longe e não ter ficado, digamos assim, com o trabalho a meio?
– Não vou esconder que eu ia mais longe. E disse-lhe em Belém quando o Costa Gomes apareceu na televisão a acabar com tudo. Disse-lhe que não estava satisfeito. Eu ia mais longe. Não ficava por ali. Mas havia o comando, com o Eanes, o Firmino Miguel, o Tomé Pinto.
– Pires Veloso já afirmou que esse comando era uma ficção. O que contou foi o senhor em Lisboa, com os comandos, e ele no Porto, à frente da Região Militar do Norte. Concorda?
– Não é por acaso que há muita gente que não percebe porque é que o Eanes era o comandante das operações na Amadora. Nós tínhamos muitas reuniões com militares e até com civis, estávamos descontentes com o que se passava. O Eanes tinha sido saneado da RTP e foi mandado para casa. Só não foi preso por acaso. Nas reuniões o Eanes estava sempre disponível. Para escrever coisas, para fazer contactos. Sabia tudo. Foi por isso.
– E porque é que Pires Veloso diz isso?
– O Pires Veloso tem um ódio visceral ao Eanes. E quando ele escreveu o livro eu disse-lhe que, não morrendo de amores pelo Eanes, ele não podia confundir as coisas com o ódio que tem pelo Eanes.
– Também teve problemas com o Eanes?
– Deixou-me de falar.
– Porquê?
– Não vale a pena falar disso agora. Mas deixou-me de falar desde 1979.
– Antes das eleições presidenciais de 1980?
– Sim. Um dia perguntou-me se eu votava nele se ele fosse candidato contra o Soares Carneiro. Repare que nessa altura o melhor conselheiro do Eanes era o Soares Carneiro. Tinha experiência política, tinha sido secretário-geral de Angola.
– E o que é que respondeu a Eanes?
– Disse-lhe que depois de todas as conversas que tínhamos tido era evidente que votava no Soares Carneiro. E deixou de falar comigo.
– Em 1981, quando passou à reserva, já não falava com Eanes, Presidente da República. E como general Garcia dos Santos, chefe das Forças Armadas? Também teve problemas com ele?
– Em gíria militar…bem é melhor não dizer. Tem coisas boas, mas tem coisas muito más.
– Zangou-se com ele porquê?
– Zanguei-me com ele por várias razões. Mas sabe que depois da reeleição o Eanes não perdoou a ninguém que o não tinha apoiado. E a primeira coisa que fez foi, por exemplo, demitir o general Pedro Cardoso.
– Mal foi eleito?
– Foi o primeiro acto dele como chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. Pedro Cardoso era um grande especialista em informações. E foi apoiante de Soares Carneiro, como eu.
– Os apoiantes de Soares Carneiro foram todos sacrificados?
– Não digo todas. Foram algumas.
– E porque foi para a reserva em 1981?
– Eu fui nomeado para o curso de oficiais generais. E disse ao Pedro Cardoso para me poupar. Ia para a reserva. Para o curso não ia. Porque a primeira vez que deixasse de lidar com tropas eu morria. O Pedro Cardoso saiu, entrou o Garcia dos Santos, eu fui de férias e esperei que me chamasse. Um dia soube que tinham nomeado já alguém para o Regimento de Comandos, o coronel Oliveira. O Garcia dos Santos mandou-me chamar e eu, que já sabia de tudo, pedi-lhe uma folha de 25 de linhas escrevi o meu pedido de passagem á reserva.
– E nunca mais falou com ele?
– Há dois anos, num encontro, o Eanes veio-me cumprimentar. Estendeu-me a mão, mas eu não estendi a minha. E depois veio o Garcia dos Santos dizer-me que tínhamos de fazer as pazes.
– Recusou?
– Disse-lhe que nunca tinha namorado com ele.
– Acabaram com os comandos em 1993 e anos depois, em 2002, voltaram a criá-los. Porquê?
– Olhe, ainda agora, em Beja, está decorrer a formação de uma companhia de comandos. Agora estão em Mafra. Já dizem que voltam para a Carregueira. Deixei o regimento em 1981, com boas instalações militares na Amadora. Fizeram para lá gabinetes, gastaram ali milhares de contos para instalar bidés para as senhoras. Eu acho que têm direito. Como os homens. Agora transformar um quartel genuíno com gabinetes, sinceramente. O futuro dos comandos não está definido. Mas são muito importantes. Veja o que fazem no Afeganistão, por exemplo. São uma tropa cada vez mais essencial nos tempos que correm e fundamentais para os objectivo estratégicos de Portugal.
– Quando foi do 11 de Março o general Spínola tentou que o senhor aderisse?
– Tentou falar comigo ao meio-dia, já depois de ter havido a confusão toda. Eu dizia que quando fosse preciso só precisava de quatro horas para estar pronto. Não era fácil ter um Regimento de Comandos na Cintura Industrial, vigiado constantemente, com manifestações quase todos os dias. Só tivemos uma de apoio, feita pelo PS da Amadora, liderado por Andrade Neves, o primeiro presidente da Câmara da Amadora. Nem o PSD fez nada. Quando fui saneado telefonaram-me a dizer que era do PSD da Amadora. Eu perguntei quem era, nunca tinham falado comigo. Desligaram.
– E o Spínola? Como é que falou consigo?
– Eram onze e quinze da manhã de 11 de Março quando entrei no Regimento. Havia uma grande agitação no País. Está lá o Almeida Bruno e diz-me que o Spínola queria fazer uma intentona. Tens uma missão que já devia ter sido cumprida. Eu também não concordo, mas vê lá. Chamei os oficiais superiores, majores, capitães e pedi ao Bruno para repetir o que me tinha dito. Estava nessa altura a acontecer o ataque ao Ralis. Ouvimos uns tiroteios. E como eu tinha uma grande consideração pelo coronel Morgado, que era o comandante da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, agarrei no telefone e perguntei-lhe o que se passava.
– Uma grande confusão, não?
– Disse-me que tinha ido lá o Monge mas que a Cavalaria não saía. Pouco depois do meio-dia tocou-me o telefone e era o António Ramos a dizer-me que o “velho” queria falar comigo. E a conversa foi esta: “Ó Neves, então como é que vai a tua missão?”. E eu respondi-lhe: “Mal qual missão?”. E lá me falou no Bruno e no Monge e que queria meter-se no helicóptero e chegar a Lisboa à frente da Cavalaria. E eu perguntei-lhe: “Qual Cavalaria? A Cavalaria não saiu”. Diz-me o Spínola: “Não me digas que fui enganado”. E a minha resposta foi rápida: “Passa a vida a ser enganado”. Foi de helicóptero mas para Espanha.
PERFIL
Jaime Alberto Gonçalves das Neves nasceu na freguesia de S. Dinis, concelho de Vila Real, em 24 de Março de 1936. Fez a escola primária na aldeia de S. Martinho de Anta e o liceu em Vila Real. Em 1953 veio para a Escola do Exército. Casado, com três filhos, começou a sua carreira militar em Mafra, em 1957. Nesse ano partiu para Moçambique de onde, como alferes, foi para a Índia. Em 1962, já como tenente, fez a primeira comissão de serviço em Angola, como capitão de uma companhia de Caçadores Especiais. Graduado em coronel em 1975, esteve à frente do Regimento de Comandos da Amadora até 1981.

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